Campanha lançada durante o Coops Day mobiliza veículos, terminais e cooperados para arrecadar e levar donativos às famílias venezuelanas afetadas por terremotos
Os cooperados de Roraima tiveram um Coops Day de interesse pela comunidade. Na fronteira mais ao norte do Brasil, as cooperativas de transporte do Estado transformaram sua experiência com estradas em uma estrutura de apoio humanitário. A campanha “Cooperativismo Sem Fronteiras – Transporte Solidário por Venezuela” mobilizou organizações do setor para arrecadar e encaminhar donativos às famílias atingidas pelos terremotos registrados no país vizinho no fim de junho de 2026.
Promovida pelo Sistema OCB/RR, a ação foi lançada em 4 de julho, durante as comemorações do Coops Day — Dia Internacional das Cooperativas. Em vez de limitar a data a uma atividade institucional, as organizações aproveitaram sua capacidade operacional para criar uma rede de coleta, armazenamento e transporte de ajuda humanitária.
A mobilização reuniu as 12 cooperativas de transporte alternativo intermunicipal de passageiros de Roraima, além da Coopertan, que atua no transporte de cargas. Juntas, essas organizações passaram a receber alimentos não perecíveis, água, roupas, calçados, cobertores, fraldas descartáveis e produtos de higiene.
Uma rede presente em diferentes municípios
O alcance da campanha está diretamente relacionado à capilaridade das cooperativas. Os pontos de coleta foram instalados nas sedes das organizações participantes em municípios como Caracaraí, Iracema, Mucajaí, Alto Alegre, Cantá, Bonfim, Normandia, Amajari, Pacaraima, Boa Vista, Rorainópolis, São João da Baliza, São Luiz do Anauá e Caroebe.
Em Boa Vista, a arrecadação também ocorreu na sede do Sistema OCB/RR, no Terminal do Caimbé e em um estabelecimento comercial localizado na Avenida Venezuela. Dessa forma, a campanha utilizou locais já conhecidos por passageiros, motoristas e moradores, facilitando a participação da população.
Essa presença territorial representa uma vantagem importante em situações emergenciais. Afinal, as cooperativas já conhecem as rotas, mantêm veículos em circulação, possuem associados distribuídos pelo estado e operam pontos de embarque e atendimento. Portanto, não foi necessário criar uma rede logística do zero: a estrutura utilizada diariamente para transportar pessoas e mercadorias passou a servir também ao transporte da solidariedade.
Cooperativas assumem a logística da ajuda
A coleta dos materiais representa apenas a primeira etapa de uma operação humanitária. Depois que os donativos chegam aos pontos de arrecadação, é necessário separar, armazenar, carregar e transportar os produtos até as organizações responsáveis pelo atendimento das famílias.
Em Roraima, essa logística ficou sob a coordenação da Cooperativa de Transporte de Pacaraima (Cootap), em parceria com a Unitap e a Cootar. As cooperativas assumiram a responsabilidade de transportar as doações até a Venezuela, onde os produtos seriam entregues a instituições e representantes envolvidos na assistência às comunidades atingidas.
Pacaraima ocupa uma posição estratégica nesse percurso. O município está localizado na fronteira com a Venezuela e é ligado a Boa Vista pela BR-174, considerada pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes a espinha dorsal rodoviária de Roraima. A estrada corta o estado de norte a sul e funciona como corredor para o deslocamento de pessoas e mercadorias em direção à fronteira.
Experiência construída em uma fronteira humanitária
A iniciativa também ocorre em uma região acostumada a lidar com grandes demandas humanitárias. Desde 2018, Roraima abriga a Operação Acolhida, resposta coordenada pelo Governo Federal para receber, proteger e integrar migrantes e refugiados venezuelanos. A força-tarefa reúne órgãos governamentais, organismos internacionais, organizações sociais e instituições civis.
Nesse contexto, as cooperativas de transporte possuem uma característica que pode ampliar a capacidade de resposta da sociedade: elas combinam conhecimento local, organização empresarial e vínculos comunitários. Seus cooperados percorrem diariamente estradas, terminais e municípios que muitas organizações humanitárias teriam dificuldade para alcançar com a mesma rapidez.
A ação roraimense mostra, portanto, que o ramo Transporte pode exercer uma função estratégica em momentos de crise. Além de transportar passageiros e cargas, as cooperativas podem organizar rotas emergenciais, recolher donativos, disponibilizar veículos, mobilizar motoristas e conectar comunidades afastadas aos centros de distribuição.
Coops Day transforma princípio em ação
O tema mundial do Coops Day 2026 foi “Cooperativas por um mundo pacífico”. A proposta apresentou as cooperativas como organizações capazes de promover inclusão, justiça social, diálogo e fortalecimento das comunidades.
Em Roraima, esse conceito ganhou uma dimensão concreta. A paz não foi tratada apenas como ausência de conflitos, mas como a capacidade de socorrer populações vulneráveis, atravessar fronteiras com ajuda e colocar estruturas econômicas a serviço da vida.
A campanha também materializa dois princípios fundamentais do cooperativismo: a intercooperação, demonstrada pela atuação conjunta de diversas organizações de transporte, e o interesse pela comunidade, expresso no atendimento a famílias que vivem além das fronteiras brasileiras.
Ao criar um corredor solidário entre o Brasil e a Venezuela, as cooperativas roraimenses mostraram que logística humanitária não depende somente de grandes estruturas públicas ou internacionais. Ela também pode surgir da união de trabalhadores que conhecem o território, compartilham recursos e decidem cooperar diante de uma emergência.
Mais do que levar donativos, os veículos envolvidos na campanha transportam uma mensagem: em regiões de fronteira, onde crises sociais, ambientais ou humanitárias podem ultrapassar limites nacionais, o cooperativismo pode funcionar como uma ponte entre comunidades.

