A chegada dos carros autônomos ao transporte de passageiros deixou de ser apenas uma previsão para os taxistas de Londres. A capital britânica está perto de colocar passageiros em veículos que usam inteligência artificial para dirigir, enquanto empresas como Uber, Wayve, Waymo e Baidu disputam espaço em um dos maiores mercados de transporte individual da Europa. A mudança, porém, provoca reação dos motoristas e abre uma discussão que também interessa diretamente aos taxistas brasileiros: quem poderá explorar o transporte individual quando o carro não precisar mais de motorista?
O avanço mais recente ocorreu em 5 de agosto de 2026, quando a Transport for London (TfL) concedeu licenças de veículos de aluguel privado a carros elétricos Ford Mustang Mach-E equipados com a tecnologia autônoma da britânica Wayve. Os automóveis deverão ser oferecidos pelo aplicativo da Uber ainda neste verão europeu. Entretanto, nesta primeira etapa haverá um profissional treinado atrás do volante, preparado para assumir o controle em uma emergência. Portanto, ainda não se trata de um táxi totalmente sem motorista circulando livremente por Londres. citeturn251898news39turn251898news40
A diferença é importante. Os veículos poderão transportar passageiros e utilizar seus sistemas automáticos de direção, mas a presença humana continua sendo uma exigência da operação inicial. Para retirar definitivamente o motorista, as empresas precisarão avançar no sistema britânico de autorização para Automated Passenger Services, criado para serviços semelhantes a táxis, carros de aplicativo e ônibus autônomos. O governo britânico abriu as inscrições para esses projetos em maio de 2026. citeturn394335search5
Londres se transforma em laboratório dos robotáxis
O Reino Unido criou uma estrutura jurídica própria para preparar essa mudança. O Automated Vehicles Act 2024 estabeleceu as bases legais para a circulação de veículos capazes de dirigir sem intervenção humana. Posteriormente, o governo criou o sistema de permissões para serviços automatizados de passageiros. As experiências iniciais antecedem a implementação mais ampla da legislação, prevista para a segunda metade de 2027. citeturn145688search1turn145688search3
Londres tornou-se um dos principais campos de disputa. Além da parceria entre Uber e Wayve, a Waymo, empresa do grupo Alphabet, dono do Google, testa veículos na cidade. A Assembleia de Londres informou que a empresa já mantém uma frota de cerca de 100 veículos em testes. Também manifestaram interesse em operar na cidade combinações envolvendo Uber e Baidu, Lyft e Baidu, além da própria Waymo. citeturn394335search3turn394335search6
A procura inicial mostra curiosidade dos passageiros. Mais de 100 mil pessoas já teriam demonstrado interesse em experimentar os veículos da Uber e Wayve. Pelo modelo anunciado pela Uber, um usuário poderá solicitar uma corrida convencional pelo aplicativo e, nas regiões atendidas, receber a opção de viajar em um veículo autônomo. citeturn251898news39turn850258search0
O grande objetivo das empresas, entretanto, vai além dessa fase supervisionada. A tecnologia é desenvolvida para chegar ao chamado nível 4 de automação, no qual o veículo pode executar todo o percurso dentro de determinadas áreas e condições sem depender da atuação de uma pessoa ao volante.
É justamente nesse ponto que aparece a maior preocupação dos motoristas profissionais.
Taxistas londrinos reagem à chegada dos robotáxis
A perspectiva de carros sem motorista provocou reação entre os tradicionais black cabs e, principalmente, entre motoristas de veículos privados que trabalham para aplicativos. Para esses profissionais, o debate não envolve somente tecnologia, mas o futuro de milhares de empregos.
Os taxistas londrinos lembram que dirigir na cidade exige enfrentar ruas estreitas, obras, desvios inesperados, ciclistas, pedestres, ônibus e situações que nem sempre seguem um padrão. Motoristas dos black cabs também destacam o treinamento conhecido como The Knowledge, pelo qual precisam conhecer milhares de ruas, trajetos e pontos de interesse antes de obter a licença profissional. Representantes da categoria questionam se sensores e inteligência artificial conseguirão substituir essa experiência. citeturn554444news40
A reação ganhou contornos mais fortes em junho. Motoristas de transporte privado representados pelo sindicato IWGB interromperam uma reunião do Comitê de Transportes da Assembleia de Londres que discutia os veículos autônomos. Eles levantaram preocupações sobre empregos, segurança dos passageiros e aumento do congestionamento. O debate é especialmente sensível porque Londres possui mais de 100 mil motoristas de veículos privados de passageiros. citeturn554444search5turn554444search3
Além da ameaça ao trabalho, existem dúvidas práticas. Quem ajudará um idoso a entrar no carro? Como será feito o atendimento de uma pessoa com deficiência? Quem auxiliará passageiros com malas, crianças ou dificuldades de mobilidade? E o que acontecerá quando um automóvel precisar parar diante de uma obra não prevista, interpretar o gesto de um policial ou abrir espaço para uma ambulância?
Essas dúvidas não são levantadas apenas pelos profissionais. Pesquisa realizada pelo YouGov para a Assembleia de Londres mostrou que 42% dos moradores se opõem à introdução dos veículos autônomos de passageiros, enquanto 29% apoiam. Apenas 29% afirmaram que provavelmente utilizariam o serviço. Entre as principais preocupações aparecem situações inesperadas ou emergências, citadas por 48% dos entrevistados, risco nas ruas, por 41%, e falhas técnicas, por 39%. citeturn394335search0
Assembleia investiga efeito sobre emprego e trânsito
A própria Assembleia de Londres abriu uma investigação para avaliar os impactos dos robotáxis antes de uma implantação em grande escala. O estudo analisa emprego, licenciamento, segurança viária, congestionamento, acessibilidade, segurança cibernética e a relação dos veículos autônomos com o transporte público. citeturn251898search0
Existe ainda uma discussão sobre a autoridade responsável pela fiscalização. A TfL continua sendo responsável pelo licenciamento dos táxis e veículos privados convencionais de Londres. Para um serviço completamente autônomo, porém, a autorização principal deverá passar pelo sistema nacional de Automated Passenger Services, embora a TfL tenha participação no processo e possa avaliar impactos locais. citeturn251898search2turn145688search3
Na prática, Londres está criando duas etapas. Primeiro, carros capazes de dirigir autonomamente circulam com um motorista de segurança. Posteriormente, mediante novas autorizações e comprovação de segurança, poderá ser retirada a pessoa do volante.
Essa transição é justamente o ponto que merece atenção no Brasil.
E no Brasil: robotáxi poderia circular hoje?
Não nas mesmas condições de um robotáxi totalmente autônomo.
O Brasil ainda não possui regulamentação que permita de maneira geral a circulação comercial de veículos de passageiros completamente sem motorista pelas vias públicas. Em audiência realizada na Câmara dos Deputados, a própria Câmara classificou os veículos que dispensam motorista como ainda proibidos no País. citeturn421576search0turn421576search4
Isso não significa que o Brasil ignore o assunto. O Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito, o Pnatrans, já prevê a necessidade de compatibilizar a legislação brasileira com a circulação dos veículos autônomos, incluindo definição das etapas para os diferentes níveis de automação, alterações legislativas e regulamentação dos testes em vias públicas. citeturn421576search31
O Programa Rota 2030 também reconheceu oficialmente veículos autônomos a partir do nível 3 de automação e criou espaço para pesquisa e desenvolvimento tecnológico nessa área. Portanto, existe uma política de incentivo à tecnologia, mas ainda falta uma estrutura completa que permita transformar um carro autônomo em serviço regular de transporte de passageiros. citeturn421576search5
Projeto no Congresso pode abrir caminho
A principal proposta em tramitação é o Projeto de Lei 1.317/2023, apresentado pelo deputado Alberto Fraga. O texto altera o Código de Trânsito Brasileiro para regulamentar os veículos autônomos terrestres.
Em julho de 2025, a Comissão de Viação e Transportes da Câmara aprovou um substitutivo ao projeto. A proposta estabelece que os veículos deverão cumprir requisitos definidos pelo Conselho Nacional de Trânsito e prevê uma fase de testes antes da circulação regular. citeturn374661view0
Para realizar os testes, o fabricante deverá apresentar documentação e indicar previamente as rotas. Também será necessário contratar seguro para danos, lesões e mortes, assumir responsabilidade por eventuais problemas provocados pelo sistema e apresentar relatórios sobre os resultados da experiência. Em caso de acidente, os testes deverão ser interrompidos e a ocorrência comunicada às autoridades. citeturn374661view0
O substitutivo também prevê sistemas capazes de identificar falhas e ameaças, inclusive riscos cibernéticos. Dependendo do nível de automação, o veículo poderá circular sem atuação direta do condutor, desde que tenha autorização do órgão nacional de trânsito e respeite as condições determinadas para a rota. citeturn421576search32
A proposta considera infração gravíssima colocar um automóvel autônomo em circulação sem a autorização exigida. O texto também determina que o poder público adapte gradualmente a infraestrutura e os sistemas de comunicação necessários para a convivência desses carros com os demais veículos. citeturn374661view0
Outro projeto, o PL 3.641/2023, do deputado Bruno Ganem, trata de diretrizes para circulação, operação e utilização dos veículos autônomos em todo o território nacional. A proposta foi anexada ao PL 1.317 e passou a tramitar em conjunto. citeturn374661search2
Até agosto de 2026, porém, o processo ainda está longe de concluído. Depois da aprovação na Comissão de Viação e Transportes, o PL 1.317/2023 encontra-se na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania, aguardando designação de relator. A última movimentação registrada na ficha oficial é de 9 de julho de 2025. Depois da Câmara, a matéria ainda precisará passar pelo Senado para se transformar em lei. citeturn374661search1
Marco da Inteligência Artificial também alcança carros autônomos
Existe ainda uma segunda frente legislativa que poderá atingir os robotáxis. O PL 2.338/2023, que estabelece o marco brasileiro da inteligência artificial, foi aprovado pelo Senado e está sendo analisado pela Câmara.
O texto encaminhado pelos senadores classifica como sistemas de inteligência artificial de alto risco os veículos autônomos em espaços públicos quando houver risco relevante à integridade física das pessoas. Isso significaria maiores obrigações de governança, segurança e avaliação de risco para as empresas responsáveis pelos sistemas. citeturn644857search12
A proposta continua sendo examinada por uma comissão especial da Câmara e ainda poderá sofrer alterações. Portanto, o Brasil poderá acabar construindo duas camadas de regulamentação: uma relacionada ao veículo e às regras de trânsito, por meio do PL 1.317, e outra relacionada à inteligência artificial utilizada para tomar decisões, por meio do PL 2.338.
Robotáxi brasileiro enfrentaria ainda a Lei do Taxista
Há um terceiro obstáculo pouco discutido. Mesmo que o Congresso autorize a circulação de carros sem motorista, isso não significa que eles automaticamente poderão atuar como táxis.
A Lei nº 12.468/2011 reconhece a profissão de taxista e estabelece que a utilização de veículo para transporte público individual remunerado de passageiros é atividade privativa dos profissionais taxistas. Para exercer a atividade, o profissional precisa, entre outros requisitos, ter habilitação para dirigir. citeturn906055search0
Por isso, um carro que não tenha motorista cria uma questão jurídica nova: ele seria um táxi, um veículo de aplicativo ou uma nova modalidade de transporte?
A Política Nacional de Mobilidade Urbana aumenta essa complexidade. A lei determina que os serviços de táxi sejam organizados, disciplinados e fiscalizados pelos municípios. Também cabe aos municípios e ao Distrito Federal regulamentar o transporte remunerado privado individual solicitado por aplicativos. citeturn352532search0
Assim, mesmo depois de uma eventual regulamentação federal dos veículos autônomos, cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte ou Curitiba provavelmente terão de definir regras próprias para a exploração comercial desses automóveis.
Quem será dono do robotáxi?
Essa talvez seja a discussão econômica mais importante para a categoria.
No modelo atual, uma parcela relevante dos taxistas brasileiros é proprietária do veículo e titular ou vinculada a uma autorização municipal. Nos aplicativos, embora a plataforma controle a tecnologia que distribui as corridas, o automóvel e os custos da operação normalmente ficam com o motorista.
O robotáxi pode inverter essa relação. Grandes empresas poderão possuir ou administrar frotas inteiras de veículos que trabalham praticamente 24 horas por dia, parando apenas para recarga, limpeza ou manutenção.
Nesse cenário, o motorista deixa de ser necessário para realizar cada viagem.
Entretanto, esse resultado não é inevitável. Cooperativas de taxistas, associações e até os próprios autorizatários poderiam, no futuro, adquirir ou operar coletivamente veículos autônomos. A questão, portanto, pode deixar de ser apenas “o robotáxi vai acabar com o taxista?” e passar a ser “quem terá o direito de explorar economicamente o robotáxi?”
É uma discussão que o Congresso brasileiro ainda não enfrentou de maneira específica.
Nas proposições consultadas na Câmara e no Senado, não foi localizado até agora um projeto federal específico para regulamentar o robotáxi como modalidade de transporte de passageiros, estabelecer cotas para taxistas ou reservar a exploração de veículos autônomos aos atuais autorizatários. Os projetos existentes concentram-se principalmente na segurança e circulação dos veículos.
Experiência de Londres serve de alerta
O caso londrino mostra que a mudança provavelmente ocorrerá de forma gradual. Primeiro vêm os testes. Depois os veículos transportam passageiros acompanhados por motoristas de segurança. Em seguida, aparecem serviços restritos a determinadas áreas. Somente depois poderá ocorrer a retirada completa do motorista.
Isso oferece tempo para que governos e entidades de taxistas discutam regras antes de uma eventual implantação no Brasil.
Questões como responsabilidade por acidentes, seguro obrigatório, segurança cibernética e qualidade da infraestrutura precisarão ser resolvidas. Mas a categoria profissional também deverá colocar na agenda temas como emprego, propriedade das frotas, acesso às autorizações, limites à circulação de carros vazios e participação de taxistas e cooperativas na nova tecnologia.
A experiência de Londres revela ainda que a tecnologia não chega sem resistência social. A oposição registrada entre os moradores e a mobilização dos motoristas mostram que governos dificilmente poderão tratar os robotáxis apenas como uma inovação tecnológica.
Para o taxista brasileiro, portanto, o carro autônomo ainda não representa uma concorrência imediata nas ruas. Não existe hoje autorização geral para um robotáxi sem motorista operar comercialmente no País e o principal projeto de regulamentação continua parado na Câmara.
Mas Londres demonstra que a distância entre teste experimental e serviço comercial está diminuindo rapidamente. A discussão brasileira, por isso, pode precisar começar antes que os primeiros robotáxis estejam diante de um ponto de táxi.
Meta description: Robotáxis avançam em Londres e provocam reação dos taxistas. Veja como está a tecnologia, quais projetos tramitam no Brasil e quando carros autônomos poderão chegar ao transporte de passageiros.
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