Levantamento do IBGE mostra que profissionais ligados às plataformas trabalham mais horas e recebem menos por hora; somente um em cada quatro motoristas de app tem cobertura previdenciária
O trabalho intermediado por aplicativos já reúne cerca de 2 milhões de pessoas no Brasil. Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 4 de setembro mostram que 1,959 milhão de brasileiros utilizaram plataformas digitais para prestar serviços em 2025. Desse total, aproximadamente 1,2 milhão atuava no transporte de passageiros.
O levantamento integra um módulo especial da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua). Os resultados revelam que as plataformas ampliaram sua presença no mercado de trabalho, mas também expõem diferenças importantes de jornada, remuneração e proteção previdenciária.
Em média, os trabalhadores chamados de “plataformizados” cumpriram 44,7 horas semanais, 5,4 horas a mais do que os demais ocupados no setor privado, cuja jornada média foi de 39,3 horas.
Apesar do tempo maior dedicado à atividade, o rendimento mensal ficou praticamente no mesmo nível. Os trabalhadores por aplicativos receberam, em média, R$ 3.147 por mês, contra R$ 3.148 entre os não plataformizados.
A diferença aparece com mais clareza no rendimento por hora. Enquanto os profissionais ligados às plataformas receberam, em média, R$ 16,20 por hora, os demais trabalhadores alcançaram R$ 18,40. Isso significa que o rendimento por hora dos plataformizados foi 12% menor.
Segundo o IBGE, o valor informado pelos motoristas e demais profissionais corresponde ao rendimento efetivamente retirado da atividade, após o pagamento de despesas como combustível.
Transporte concentra seis em cada dez trabalhadores
Os aplicativos de transporte de passageiros concentram a maior parte dos profissionais identificados pela pesquisa. Cerca de 1,2 milhão de pessoas, ou 58,9% do total, utilizaram esse tipo de plataforma em 2025.
Desse grupo, aproximadamente 1,1 milhão trabalhou por plataformas de transporte particular, como Uber e 99. Outros 232 mil profissionais utilizaram exclusivamente aplicativos de táxi.
Também foram identificados 376 mil trabalhadores em plataformas de entrega de alimentos e produtos, equivalentes a 19,2% do total. Outros 313 mil utilizaram aplicativos destinados à prestação de serviços gerais ou profissionais.
No recorte dos trabalhadores que tinham os aplicativos como ocupação principal, o contingente passou de 1,3 milhão, em 2022, para 1,7 milhão, em 2024, e chegou a 1,8 milhão em 2025. O crescimento foi de 9,1% em um ano e de 36,8% no intervalo de três anos.
O IBGE ressalta que o total de 1,959 milhão apurado em 2025 inclui também pessoas que utilizaram aplicativos para complementar a renda. Por isso, esse número mais amplo não pode ser comparado diretamente com os levantamentos anteriores.
Motoristas trabalham quase 46 horas por semana
Quando considerados especificamente os motoristas de aplicativos, a pesquisa contabilizou 905 mil profissionais em 2025 no recorte comparável da ocupação principal. O número cresceu 9,8% em relação a 2024 e 26% desde 2022, quando eram 718 mil.
A jornada média dos motoristas ligados às plataformas chegou a 45,9 horas semanais, contra 40,4 horas entre os condutores que não trabalhavam por aplicativos.
Os motoristas de app receberam, em média, R$ 14,40 por hora, enquanto os demais motoristas alcançaram R$ 16. No fim do mês, o rendimento médio dos plataformizados foi de R$ 2.873.
Embora o valor mensal tenha ficado 2,4% acima do recebido pelos motoristas não vinculados às plataformas, foi necessário trabalhar mais horas para alcançar essa renda.
Informalidade chega a 72,1%
A informalidade atingiu 72,1% dos trabalhadores por aplicativos, bem acima dos 42,7% registrados entre os demais ocupados do setor privado.
A diferença também aparece na proteção previdenciária. Apenas 34% dos plataformizados contribuíam para algum instituto de Previdência, contra 63% dos demais trabalhadores.
Entre os motoristas de aplicativos, somente 25,5% tinham cobertura previdenciária. Na prática, apenas um em cada quatro estava protegido por benefícios como aposentadoria, auxílio por incapacidade temporária e pensão por morte.
A situação é ainda mais preocupante entre os motociclistas que trabalham com transporte ou entregas. Dos 405 mil profissionais identificados, apenas 79 mil contribuíam para a Previdência, o equivalente a 19,4%.
O dado chama atenção porque motoristas e motociclistas permanecem expostos a acidentes de trânsito, doenças ocupacionais, afastamentos e perda temporária da capacidade de trabalho.
Trabalhador é autônomo, mas plataforma define preços
Aproximadamente 86,8% dos profissionais pesquisados declararam trabalhar por conta própria. Entretanto, o IBGE identificou dependência significativa em relação às empresas responsáveis pelos aplicativos.
Entre os motoristas de transporte de passageiros, excluídos os taxistas, 80,2% afirmaram que o valor de cada corrida era totalmente determinado pela plataforma.
Nos serviços de entrega, 78,3% disseram depender integralmente do aplicativo para a definição do valor recebido. Outros 65,9% declararam que o prazo para concluir a tarefa era estabelecido pela plataforma, enquanto 71,3% afirmaram não controlar a forma de pagamento.
Para o IBGE, essas características diferenciam o trabalhador de aplicativo do profissional autônomo tradicional, que normalmente possui maior liberdade para definir preços, condições e prazos do serviço.
Dados reforçam debate sobre regulamentação
A expansão do trabalho por plataformas ocorre enquanto o país discute quais direitos e obrigações devem fazer parte da regulamentação da atividade. Entre os principais pontos estão a contribuição previdenciária, a remuneração mínima, a transparência dos algoritmos e a definição sobre eventual vínculo de emprego.
Para os motoristas, os números revelam que a flexibilidade oferecida pelos aplicativos vem acompanhada de jornadas maiores e baixa proteção social. Também mostram que o rendimento mensal, isoladamente, não traduz todas as condições da atividade, porque precisa ser relacionado ao número de horas trabalhadas e às despesas necessárias para manter o veículo em circulação.
A Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que representa empresas do setor, reconheceu a importância da pesquisa, mas contestou aspectos da metodologia. Segundo a entidade, o levantamento, classificado pelo próprio IBGE como experimental, apresenta limitações para medir o universo de trabalhadores e seus rendimentos.
A íntegra dos dados está disponível na página da Pnad Contínua do IBGE. Informações complementares foram publicadas pela Agência Brasil.
Perguntas e respostas
Quantas pessoas trabalham por aplicativos no Brasil?
O IBGE identificou 1,959 milhão de pessoas utilizando plataformas digitais para trabalhar em 2025. O número inclui quem tinha a atividade como ocupação principal ou fonte complementar de renda.
Quantos trabalham com transporte de passageiros?
Aproximadamente 1,2 milhão utilizaram aplicativos de transporte. Desse grupo, 1,1 milhão usava plataformas de transporte particular e 232 mil trabalhavam exclusivamente com aplicativos de táxi.
Quanto ganha um motorista de aplicativo?
No recorte da ocupação principal, o rendimento médio mensal dos motoristas de app foi de R$ 2.873 em 2025. O rendimento médio por hora ficou em R$ 14,40.
Qual é a jornada média dos motoristas de app?
Os motoristas ligados às plataformas trabalharam, em média, 45,9 horas por semana, ante 40,4 horas entre os demais motoristas.
Quantos motoristas de aplicativo contribuem para a Previdência?
Somente 25,5% tinham cobertura previdenciária em 2025, o equivalente a aproximadamente um em cada quatro profissionais.




